Reprogramar células pode ser caminho para tratar anemia, diz estudo da USP

Reprogramar células pode ser caminho para tratar anemia, diz estudo da USP
quinta-feira, 25/01/2018 - FONTE: UOL/ Viva Bem

Uma pesquisa realizada pela geneticista Maria Florencia Tellechea, da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP, descobriu que a reprogramação das células de pacientes com anemia aplástica adquirida auxilia no estudo da doença e poderá ser utilizada, futuramente, em transplantes autólogos (de células originadas pelo próprio paciente) de medula óssea.

De forma geral, esse tipo de anemia pode ter causas genéticas ou ser adquirida --o que ocorre em 80% dos casos identificados. Nesse caso, as células do sistema imune são as responsáveis pela destruição das células-tronco hematopoiéticas. A incidência no Brasil é de um a dois casos por milhão de habitantes por ano, porém a origem da doença não é bem definida.
 
Utilizando a expressão forçada de genes específicos introduzidos nas células, o estudo obteve as chamadas células-tronco pluripotentes induzidas (iPSCs). Neste caso, elas foram induzidas a se diferenciarem em células do sangue que estão afetadas e diminuídas na doença, que são as células-tronco e progenitoras hematopoiéticas presentes na medula óssea.
 
Estas são precursoras, "responsáveis pela produção de todas as linhagens celulares presentes na circulação sanguínea, como glóbulos brancos, vermelhos e plaquetas”, explicou Tellechea para o Jornal da USP. A carência de células-tronco hematopoiéticas na medula óssea resulta na diminuição das diversas linhagens celulares sanguíneas, causando sintomas como fadiga, infecções e hemorragias que podem ser fatais.
 
Como funciona Em casos de anemia aplástica grave, o tratamento de primeira escolha costuma ser o transplante de medula óssea. No entanto, o método é indicado apenas para pacientes com até 40 anos, e com doador compatível aparentado. No caso de pacientes acima dessa idade ou sem doador disponível, o tratamento mais indicado é a chamada terapia imunossupressora, que busca eliminar as células do sistema imune responsáveis pela destruição das células-tronco hematopoiéticas.
 
Contudo, a pesquisadora diz que as terapias existentes podem não ser totalmente efetivas. Segundo ela, no caso do tratamento imunossupressor, a medicação que atua suprimindo as células do sistema imune do paciente, como a ATG, tem como efeito adverso a suscetibilidade dos pacientes a infecções que podem ser letais. Além disso, um terço dos pacientes apresenta recaída.
 
Tellechea ressaltou ainda que o transplante de medula óssea depende da idade do paciente, assim como da disponibilidade de doador. Contudo, apenas 30% das pessoas têm um doador compatível aparentado. Além do mais, em 10% dos casos, existe rejeição imunológica das células-tronco hematopoiéticas transplantadas, causando a doença do enxerto contra hospedeiro, que é extremamente grave.
 
Reprogramação As células-tronco hematopoéticas são multipotentes, ou seja, sua capacidade de originar outras células é limitada apenas para linhagens celulares do sangue. O diferencial das células pluripotentes é a capacidade de dar origem a todos os tipos de células presentes no corpo. Isso vale tanto para as pluripotentes embrionárias quanto para as artificialmente induzidas, isto é, derivadas de uma célula-tronco não-pluripotente pela indução da manifestação de certos genes, como feito no estudo.
 
As células-tronco pluripotentes induzidas são obtidas por reprogramação nuclear de células comuns provenientes de praticamente qualquer tecido, como a pele ou o sangue periférico (aquele que está em circulação, e não na medula óssea). Esse processo é realizado através da expressão forçada de alguns genes introduzidos nas células. “As células reprogramadas adquirem características semelhantes às células-tronco embrionárias, como morfologia e expressão de marcadores de pluripotência”, detalha a cientista.
 
A pluripotência, ou a capacidade das iPSCs de darem origem a todos os tipos de tecidos presentes no organismo, foi utilizada no estudo para obtenção de células-tronco e progenitoras hematopoéticas do próprio paciente com anemia aplástica adquirida. Por enquanto, essas células hematopoéticas originadas de material do próprio paciente servem para estudar o funcionamento da doença em testes in vitro. Quando houver capacidade de garantir a segurança e produção em grande escala, elas poderão ser utilizadas para o tratamento, por meio dos transplantes autólogos (que utilizam no paciente suas próprias células-tronco).
 

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